The Story of how I became a Photographer
“Consequently, I am uncertain if any photographs were ever successfully produced by that remarkable orange camera. Nonetheless, I transformed it into a toy, envisioning myself one day capturing breathtaking images. Thus, the dreamer that persists within me today might have been born on that very day.”
ENG.
Every story has a moment that we call the beginning. Though it is hard for me to locate the precise instant where I can say, “there it was, where it all started!” I was, however, struck with a memory that I will never forget: that of my first camera.
His name was Zé. He was my grandfather on my mother’s side. I didn’t know him well, nor did I see him much, as there was some kind of problem in the family relationship that, as a child, it was impossible for me to comprehend. Certainly, that was the reason why I felt this huge desire to connect with and get to know my grandfather.
My earliest recollection, which remains the sole memory I possess of him, dates back to when I was approximately four or five years old. On the occasion of my birthday, my grandfather Zé presented me with a camera - a small and peculiar orange device, most likely intended for children use only. However, to me, it was simply a magic object.
I vividly recall the feeling of being absolutely awestruck by that magnificent piece. I also remember my grandfather Zé attempting to instruct me on the process of attaching the camera roll – that was smaller than your typical roll - but my young self couldn’t quite grasp anything from the explanations. Consequently, I am uncertain if any photographs were ever successfully produced by that remarkable orange camera. Nonetheless, I transformed it into a toy, envisioning myself one day capturing breathtaking images. Thus, the dreamer that persists within me today might have been born on that very day.
That moment, when that estranged man - whom I had scarcely acquainted myself with - presented me with an enthralling contraption that had the power to halt time, will remain, akin to a photograph, indelibly etched in my memory forever. This is for all the families that are never without imperfections, but somehow the unwordly conection that they have in common, if far more capable and sacred than the sum of all their mistakes.
Although I wish I had the opportunity to establish a better relationship with the father of my mother, I like to believe that my vocation as a photographer is partly due to his influence. Therefore, I find myself happy, with the sense that something from my grandfather Zé still dwells within me, till this day.
PT.
Todas as histórias têm um momento que a que chamamos de começo. Mas é difícil localizar na minha vida o preciso instante em poderia dizer: “foi ali que tudo começou!”. Ficou, contudo, comigo uma memória que nunca esquecerei. A da minha primeira máquina fotográfica.
Chamava-se Zé. E era o meu avô do lado materno. Não era uma pessoa que eu conhecesse bem, ou que eu visse muito, pois existia um problema na relação familiar, que para mim, enquanto criança era impossível de compreender. Certamente por isso sentia um enorme desejo em me relacionar e conhecer melhor o meu avô.
A minha primeira memória é aliás, a única memória que dele tenho, deveria eu ter cerca de quatro ou cinco anos. Foi precisamente aquela, em que, por ocasião dos meus anos o meu avô Zé me decidiu oferecer uma máquina fotográfica. Era pequena e cor de laranja, seria provavelmente para crianças, mas para mim era simplesmente um objecto mágico.
Aquele momento, em que um estranho homem que eu mal conhecia, me estava a oferecer, com um inolvidável brilho de ternura nos seus olhos, um fascinante objecto que permitiria parar o tempo, ficará, tal como uma fotografia, imortalizado para sempre. Por todas as famílias que de uma forma ou de outra não são perfeitas, mas o laço que lhes é comum é algo muito mais forte, mais sagrado, do que a soma de todos os seus erros.
Gostaria de ter conhecido melhor o Pai da minha Mãe. Mas gosto de pensar, que se hoje sou fotógrafo é também por causa dele, e que portanto existe ainda em mim uma pequena parte do meu saudoso avô Zé.
Small Cottage in Azores - Pequeno Refúgio nos Açores
“A house is never a home without the presence of life within its walls. Thus, architecture, despite dealing with space, light, gravity, and materials, is primarily concerned with the metaphysical phenomenon of human existence.”
ENG.
There is a certain luxury in stripping away the accessory. When we truly encounter ourselves with the essential, there is a comfort that exists in no other thing in life.
It is akin to the warmth of a fireplace or the serene grace of a landscape that pierces through the mist at dawn. Such images we long to etch forever into the depths of our souls, and to thank God for the boundless beauty of the universe.
But, if framing such splendor is not possible, we can still capture it between a small white square window and a cherry-colored wooden shutter. For there is a certain power in matter. The human being is naturally more drawn towards wood or stone rather than plastic. And sometimes, objects of antiquity, traditional things, a cherished memory of the past, exude an irresistible charm.
A house is never a home without the presence of life within its walls. Thus, architecture, despite dealing with space, light, gravity, and materials, is primarily concerned with the metaphysical phenomenon of human existence.
The crackling heather inside the fireplace, and its unmistakable aroma transports us to the anthropological depths of humanity. The crispy sound of freshly baked bread is the soundtrack of our essence, while the delicate touch that the craftsman weaves into linen towels is a hymn to the mastery of our ingenuity.
The only problem with physical comfort is that as soon as we attain it, we seek to satisfy yet another desire. It is an endless problem.
To contemplate the magnificence of things, be it a small hydrangea bathing unashamedly in the sunlight or the vast bluely ocean stretching limitlessly beyond our sight, is an indestructible idea that never fades.
It belongs to the realm of ideas, for it does not stem from the world of things, it remains eternal. Though it does not nourish us physically, it feed us in such a way that we tremble in awe like we do before the immensity of the stars as they shine upon the darkness of the night.
The ancients knew it. And we know that the ancients knew it. That is why they built temples to the dimension of the human soul.
Sometimes it doesn’t take a temple. Just a small and comforting family refuge. A place where we can perceive the vastness of such things, but while still enjoying the comfort of familiar surroundings. The flicker of the fireplace, the crackle ofrye bread, the linen towel.
(text written for an architecture studio)
PT.
Há um certo luxo em despirmo-nos daquilo que é acessório. Quando nos encontramos verdadeiramente com o imprescindível existe um conforto que não existe em mais nenhuma outra coisa na vida.
Como uma lareira. Ou como uma límpida paisagem que trespassa perante neblina do alvor. Uma imagem daquelas que nos apetece emoldurar para sempre na nossa alma, e agradecer a deus por todas as coisas bonitas do universo. Mas se não for possível emoldurar assim, emolduremos então por entre uma janelinha branca aos quadradinhos, e uma portada cor de cereja.
A matéria tem este poder. O ser humano será sempre mais atraído para a madeira, ou para a pedra, do que para o plástico. E por vezes as coisas antigas, as coisas tradicionais, a lembrança, uma memória doce do passado contém este charme difícil de resistir.
Uma casa nunca é uma casa, senão houver vida lá dentro. É por isso que a arquitectura apesar de lidar com o espaço, a luz, a gravidade, os materiais, lida sobretudo com o fenómeno metafísico da existência humana.
Dá-se o crepitar da urze dentro da lareira, e o seu aroma inconfundível leva-nos às profundezas antropológicas daquilo que é verdadeiramente o Homem. O estaladiço som do pão acabado de cozer é a banda sonora da nossa essência, enquanto que o delicado toque que o artesão tece nas tolhas de linho, é um hino à mestria da nossa engenhosidade.
O único problema do conforto físico, é que sempre que o mesmo é resolvido, logo lhe vêm um novo que se deseja saciar. É um problema inacabável. Mas contemplar a beleza das coisas: das mais pequenas, como uma hortênsia alardeada desavergonhadamente ao raio de sol, até às maiores, como o oceano que azuladamente se espreguiça ao longo do alcance da nossa vista, é uma ideia indestrutível que não se apaga nunca. Pertence ao campo das ideias. E como não vem do mundo das coisas remanesce eterna. Embora não nos alimente fisicamente, sustenta-nos de tal forma que estremecemos perante a incomensurabilidade das estrelas quando brilham perante o escuro da noite.
Os antigos sabiam-no. E nós sabemos que os antigos sabiam, por isso é que construíam os templos à dimensão do espírito humano.
Por vezes não é preciso um templo. Basta um pequeno e reconfortante refúgio de família. Um refúgio onde possamos perceber a imensidão destas coisas, mas sem abdicarmos dos confortos que nos são incrivelmente familiares. O tremeluzir da lareira, o estalar do pão de centeio, e uma toalha de linho.
(texto escrito para atelier de arquitectura)
House in Lubango - Uma Casa no Lubango
“At the end of the day it is on the stunning terrace that one can best contemplate the golden sunset landscape, while birds sing and jubilate free without dismay, and wild beasts just lie, docilely breathing the air.”
ENG.
There, in Lubango, a luxurious house is set to be born, founded on the roots of Africa, the majestic and primordial motherland, the sacred womb of the world.
This house draws inspiration from traditional Angolan constructions, particularly from the domed hut, which identical to a mother, nurtures and protects against rain, heat, mosquitoes, and wild animals.
The volumes of the first floor plan are masterfully adjusted and rotated, each space carefully crafted to offer a unique and enchanting experience of light and presence, before being merged through their common crossings.
The earth is sought after for the chameleon-like color of adobe, which blends perfectly into the magnificent landscape, revealing a different tale every season.
The concept of the arched roof, a hallmark of traditional African architecture, is reimagined here in a modern context, creating a sense of sumptuousness brought through carefully placed zenith orifices. These openings delicately pour an almost sacred light, imbuing the space with a unique and captivating ethereal wonder.
Large, modern, and splendid openings are carved into the house with intelligence and grace, ensuring a sustainable balance between unobstructed views of the outside world and protection from the sometimes burning African climate. The spaces unveil succeedingly in a palatial way, almost as if the unfolding of infinity is presenting itself before our eyes. The ceiling varies to create situations of greater or lesser intensity, of shelter, welcome, expansion, or discovery.
Outside, nestled in the lush exotic garden, skillfully sprinkled among the vegetation, small huts nestle as pompous and interesting dwellings to welcome visitors. Once again, this revisits the picturesque tradition of genuine Angolan living.
This intertwining between the luxurious mother house, a modern uterine shelter, and the primordial garden of Eden, truly speaks to us in such a pure and simple way of what Africa is.
At the end of the day it is on the stunning terrace that one can best contemplate the golden sunset landscape, while birds sing and jubilate free without dismay, and wild beasts just lie, docilely breathing the air.
(text written for an architecture studio)
PT.
Ali no Lubango vai nascer uma casa. Uma casa que é de luxo, mas assente sob raízes africanas. África terra mãe, majestosa, primordial, ventre sagrado do mundo.
Esta casa é inspirada nas construções tradicionais angolanas, naquelas cubatas abobadadas, que tal como o útero materno, nutrem, cuidam, sustentam, e protegem da chuva, do calor, dos mosquitos e da ameaça animal.
O projecto parte da preexistência de um esboço anterior. Os volumes dessa primeira planta são depois ajustados e rodados conforme a experiência de luz e do habitar que se procura para cada um, e no final, fundidos, através do seus atravessamentos comuns.
À terra vai-se buscar a cor do adobe, que tão bem se integra na prolífica paisagem, e que nos conta uma história diferente a cada época diferente do ano.
O conceito da abóbada é recriado para uma vivência mais moderna, uma interpretação formal que consegue conferir grandiosidade ao espaço, e onde através de aberturas zenitais, cuidadosamente colocadas, se derrama delicadamente uma sacra luz.
Grandes, modernos e esplêndidos vãos são rasgados inteligentemente na direcção que menos acaloramento provoca na casa, garantindo-se assim um sustentável equilíbrio entre o desafogamento visual e a protecção do, por vezes, abrasador clima africano. Os espaços sucedem-se palacianamente, quase como se o desenrolar do infinito se apresentasse diante dos nossos olhos. Variando a altura do pé direito invocam-se presenças de maior ou menor intensidade, de abrigo, acolhimento, de expansão, ou de descobrimento.
Lá fora, perdidas no exótico jardim, salpicadas com mestria por entre a vegetação, nascem pequenas cubatas como pomposos e interessantes espaços de acolhimentos de visitas, revisitando novamente a pitoresca tradição do genuíno habitar angolano.
Este conceito contrastante entre a sumptuosidade de uma casa-mãe como abrigo uterino moderno, e o etéreo e primordial oásis jardim, fala-nos na verdade, e de uma forma tão pura e simples daquilo que é essencialmente África.
No final do dia, é naquele deslumbrante terraço que melhor se contempla a dourada paisagem do sol pouseiro, enquanto os pássaros jubilam livres sem medo, e as feras selvagens apenas ali ficam respirando docilmente o ar.
The light - A Luz
“A languid light reflects on the foam that covers the sea. The taste of salt runs through my mouth, and the whole context, although intoxicating, brings me to my senses. The familiar smell of wax, the soft, cold touch of the water boiling tumultuously throughout my rigid body trying to remain whole. The crystal-clear sound of a board tearing through the water is something you will never forget.”
ENG.
A languid light reflects on the foam that covers the sea. The taste of salt runs through my mouth, and the whole context, although intoxicating, brings me to my senses. The familiar smell of wax, the soft, cold touch of the water boiling tumultuously throughout my rigid body trying to remain whole. The crystal-clear sound of a board tearing through the water is something you will never forget.
With each wave aimed at me, I can feel its power, its brutal raw energy. In every confrontation, there is doubt and silence. “Will I get through?” I feel dizzy, confused. All the synapses of my conscious mind are now fighting against the molecules of a body that only reacts to the survival instinct.
With each dive, a whirlwind of feelings, thoughts revolve in my head precisely when a vortex in aliquid state threatens it.
Behold, it rises, proud and serene, owner and lord, an unlikely figure that imposes its right of existence in the face of a conspicuous threat that is mercilessly pursuing him. In a pure stroke of instinct, our heroic figure escapes, in slow motion, the sharp blade of the wave gently robs just one simple thread of hair. A warning sign. By bottom turning the board in an irreverent act of provocation, he points his intentions to the most forbidden of all temples: the summit of that perilous body of water. The speed that he carries leads to the sublime framing, immortalized in the blackness of his silhouette framed with the backlit glow illuminated by the last three golden rays of light.
One second later, all grace collapses under the forces that came to claim the price of such bold daring. “The sea does not forgive!” I thought to myself, in an inner dialogue that only those who find themselves in that solitude where time stops, know. A deep conversation from me to myself, where it’s just me and the ocean… or even maybe, just me.
“To be entitled to the big reward one has to be prepared to pay the big price” –What a big cliché, that someone at some point has blustered. With the approach of the monster in full charge, the same beast that even heroes had succumbed to, I replied revoltingly: “I don’t want to pay the price!” So I clawed my hands with every little muscle I had into the foam of that board, found strength in the darkest corners of my being, and I said this time out loud: “Right here, it’s just me and you, YOU and I!”
I closed my eyes and prepared myself for the big clash. I dove. Rumble. Silence. Darkness. Gradually the senses awaken. Suction, oh no!“Is it this one?” I slowly float zigzagging to the surface. Breath. And now I shout again to my own stomach: “My God! How I love this shit!”
PT.
A luz, lânguida, reflecte-se douradamente na espuma que encobre o mar. O sabor do sal percorre-me a boca, e todo o contexto embora inebriante, coloca-me em sentido. O cheiro do wax que me é familiar, o toque frio e macio da água que efervesce tumultuosamente por entre a rigidez deste corpo que se quer inteiro. O som cristalino de uma prancha a rasgar água, é coisa que nunca se esquece.
A cada onda que me estava apontada, podia sentir o seu poder, a sua energia brutal. Em cada confronto, a dúvida, o silêncio. Será que vou passar? Estou tonto. Confuso. Todas as sinapses da minha mente consciente pelejam agora contra as moléculas de um corpo que já somente reage ao instinto de sobrevivência.
A cada mergulho um turbilhão de sentimentos, pensamentos, que revolvem na minha cabeça precisamente quando sobreela um vórtice em estado líquido a ameaça.
Eis que se ergue, altivo e sereno, dono e senhor, uma improvável figura que impunha o seu direito à existência perante a conspícua ameaça que impiedosamente o perseguia. Num puro golpe de instinto, a nossa heróica figura escapa, em câmara lenta, à afiada lâmina da onda que apenas lhe rouba gentilmente um cabelo. Como sinal de aviso. Ao girar a base da prancha, num irreverente acto de provocação, aponta as suas intenções ao mais proibido de todos os templos: o cume daquela periclitante massa de água. A velocidade, que consigo trazia conduz ao sublime enquadramento, imortalizando-se perante o negrume da sua silhueta emoldurada no resplendor em contraluz que a posição do sol alanternou.
Um segundo depois, toda a graciosidade desabava sob as forças que vinham reclamar o preço de tão arrojada ousadia. “O mar não perdoa!” – pensei eu. Não para os meus botões porque não os tinha, mas para mim mesmo, num diálogo interior que só quem se encontra naquela solidão onde o tempo definitivamente pára, conhece. Uma conversa profunda de mim para mim, onde resta apenas eu e o mar… ou talvez mesmo, apenas eu.
“Para se ter direito à grande recompensa tem que se estar preparado para pagar o grande preço” – Que grande cliché, que alguém, em algum momento, terá vociferado. Com a aproximação do monstro a toda a carga, daquele monstrengo que até heróis tinha derrotado, respondi revoltosamente: “Eu não quero pagar o preço! Cravei as minhas mãos com toda a força no bloco da prancha, encontrei forças nos mais obscuros recantos do meu ser e disse desta vez em voz alta: “Agora somos apenas eu e tu, TU e EU!”
Fechei os olhos, preparado para o embate. Mergulhei. Estrondo. Silêncio. Escuridão. Aos poucos os sentidos despertam. Sucção, oh não! “Será desta?” Flutuo ziguezagueando lentamente até à superfície. Respiração. E digo novamente para as minhas entranhas: “Meu Deus! Como eu adoro esta merda!”